
ESPETÁCULO-TEATRO – M/12
05.04
19h00
IPDJ, Viseu
Duração: 60 minutos
Trans/Missão
Com Carlos Costa e João Martins. Visões Úteis
Em “trans/missão” um músico e um dramaturgo abrem ao público o seu processo de trabalho numa ópera que se pretende revolucionária: uma criação que questiona precisamente as dificuldades de organização e mobilização dos coletivos – seja uma equipa artística, uma comunidade ou todo um povo… de que o português é um especial bom exemplo. Mas, ao longo desta apresentação pública, torna-se evidente a própria dificuldade de colaboração entre os dois artistas, que entram numa rota de colisão que ameaça destruir todo o projeto!
Ata nº 3 – Nós e os Outros
Redigida por Sofia Moura
No dia cinco de abril de dois mil e vinte cinco, no auditório do IPDJ em Viseu, apresentou-se a peça Trans/Missão com Carlos Costa e João Martins, da companhia Visões Úteis. Ao longo de uma hora o público assistiu ao que se assumia ser uma espécie de ensaio aberto para partilhar o processo de uma ópera que ainda viria a estrear. Rapidamente percebemos as personalidades diferentes dos criadores em cena e como elas entram em conflito durante a tomada de decisões acerca da ópera. Esta ópera tem um caráter épico, pretende ser revolucionária, disruptiva tanto na história que conta como nas escolhas musicais e de encenação, ainda que se apresente de forma vaga e fazendo uso de variados lugares-comuns. Esse aspeto bem como os vários conflitos entre os dois criadores, trazem muito humor a esta proposta. O texto está repleto de metáforas que nos fazem refletir sobre a democracia, a participação e sobre a dificuldade e a fragilidade dos processos colaborativos.
A conversa que se seguiu com o público teve como ponto de partida a questão: será possível haver democracia excessiva? Uma democracia que se atropela a si própria?
O Carlos começou por responder que, no seu ponto de vista, nunca há democracia a mais mas se o exercício da democracia atingir uma intensidade de participação tal que as pessoas já não o consigam comportar na sua vida, pode tornar-se excessiva e prejudicar assim a própria integridade da democracia. Referiu-se à existência de eleições todos os anos (estamos à porta de mais umas eleições após um curto espaço de tempo de governação) como algo que pode corroer a democracia, esticando os limites da participação. As pessoas que querem prejudicar a democracia podem ser as primeiras a intensificá-la para que as pessoas se cansem. Mencionou ainda que, na Grécia Antiga, um tirano era uma pessoa que se convocava para resolver uma situação que a democracia não estava a conseguir resolver. Era, na altura, um recurso positivo. Por vezes, a complexidade crescente das sociedades e das problemáticas que as afligem pode tornar-se uma sobrecarga para o povo. O João complementou que se definirmos bem o que é a democracia, nunca poderá haver a mais. Ela tem dentro de si todas as contradições humanas – é “o pior de todos os sistemas, à exceção de todos os outros” – citando a famosa frase de Churchill.
Abrindo o debate para a plateia, uma jovem do público manifestou que considera que existe democracia a menos e que este problema começa no seio familiar e afeta a estrutura social, laboral e escolar. As regras já estão preparadas de antemão e é desaconselhado questionar. Esta falta de pensamento inquisidor sobre porque agimos como agimos e porque tudo é como é leva à falta de mobilidade social.
O Carlos falou da evolução notória dos últimos cinquenta anos em todas as áreas, desde a família, à escola e ao processo criativo, mas mencionou, em resposta à participação da jovem, que ainda assim sentimos que podemos discutir tudo mas não podemos discutir os termos em que se discute. Ou seja, há um conjunto de regras que nunca podem ser mudadas. Partilhou o exemplo de uma das escolas onde dá aulas que tem as carteiras pregadas ao chão, pré-configurando uma relação entre professor e aluno que está ultrapassada, sobretudo nas aulas de teatro. Mas, ainda que os tempos e as relações tenham mudado, há coisas amovíveis. Podemos fazer o que quisermos mas o que está cravado ao chão – tomando esta palavra um sentido macro – não podemos tirar. Fez ainda o paralelismo para as coisas que estão cravadas na nossa mente porque vivemos a vida toda a acreditar nelas.
Chomsky refere-se a estas regras indiscutíveis como o senso comum hegemónico que cria uma espécie de ditadura do pensamento – ele só vai até certo ponto. Por exemplo, refere ele, é mais fácil imaginar o fim do mundo do que o fim do capitalismo.
O João continuou dizendo que a mudança desses paradigmas é lenta. Classificou os revolucionários como um de dois tipos: ou pessoas que não têm nada a perder, ou seres excecionais que estão dispostos a agir sem considerar as consequências do que vão fazer. Por natureza o processo revolucionário implica muito sofrimento e por isso a ideia de “descravar” regras é traumático. Independentemente das nossas convicções pessoais não estamos pré-configurados para mudar drasticamente o nosso contexto.
À falta de impulsos revolucionários conclui que só mudamos as coisas juntos. Por isso nunca há democracia a mais, ela é a nossa única alavanca para sociedades mais justas e que acolham as necessidades de todas as pessoas. As tentativas de mudança causadas por indivíduos são coisas destinadas ao fracasso e ao sofrimento. A democracia que implica falar com as pessoas e chegar a consensos, ainda que seja sempre uma miragem, é a única forma real de mudança.
Este espetáculo circula há dez anos. Há dez anos que dizem que a ópera que estão a criar há-de estrear. Contou-nos o Carlos que o espetáculo foi pensado na altura da intervenção da Troika, quando sentiram que a democracia afunilou. Contudo, após a estreia, rapidamente perceberam que continuava a fazer sentido com o passar dos anos porque as coisas nunca estão bem. Acharam também que só faria sentido no contexto português e depois perceberam que fazia sentido em vários países e assim, circularam por vários locais. O espetáculo foi escrito por cima das biografias do Carlos e do João. E hoje, passados dez anos, riem-se com a invocação daquilo que já foram. Afinal, várias coisas mudaram neste tempo. Ninguém vê o próprio crescimento. Só vemos a mudança quando fazemos o exercício deliberado de olhar para o antes e para o agora. A democracia continua no imaginar o depois.
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