O morto voltou à vida

Naquela manhã a aldeia acordou com o tilintar aflito dos sinos da igreja que anunciavam mais uma morte. O morto, a quem a memória não lembra o nome, vamos chamá-lo de Adolfo. As ruas logo se entristeceram e a sua esposa afundada num pranto, logo se apressou a contratar uma carpideira para que a morte do marido fosse devidamente chorada. Uma carpideira das boas, dessas que não prolongavam silêncios e soltavam lágrimas de sal. Pagava-se, tinha de chorar!

Procedeu-se aos respetivos preparativos da cerimónia fúnebre e dos afazeres que a morte exige. Afinal morrer é uma prática que exige variados esforços: há que comunicar ao coveiro que afie a enxada, colher as rosas, ou os cravos, e claro, transportar o morto do local onde o corpo cedera e a alma subira aos céus. Adolfo, já falecido, foi transportado por dois homens fortes, num esquife: uma espécie de carreta onde ele ia muito direitinho e coberto somente por um leve lençol. Havia agora que atravessar o caminho de terra estreito que conduzia à capela. Um caminho ladeado por silvas, tojos e urtigas que estendiam os seus ramos. Mas as silvas eram tantas que os homens que transportavam o Adolfo falecido, já tinham braços e pernas arranhados e não paravam de se coçar. 

Acontece que na curva onde o caminho se estreita, as silvas prenderam o lençol, deixando também o Adolfo falecido à mercê de ser arranhado e picado por aqueles picos aguçados. O milagre aconteceu pois nem o morto aguentou estático sem se coçar, e conta quem viu, que naquela curva do caminho, o Adolfo falecido se ergueu da carreta para afastar os ramos do corpo. Os homens, espantados, correram para à aldeia e logo anunciaram:

– O Adolfo está vivo! O morto voltou à vida!

Imagine-se a alegria da mulher e dos filhos ao receber a notícia e a tristeza da carpideira, que tinha ficado com o dia de trabalho a meio.

Adolfo, que já não era falecido, viveu ainda por longos e bons anos! Mas também ele, que parecia ter-se esquivado, conheceu o dia em que se encontrou com a morte. E aí sim, Adolfo morreu. A sua esposa, cabisbaixa, ordenou a quem de direito, que desta vez melhor mesmo era que se evitasse o caminho das silvas, e se tal não puder ser, coloquem antes o morto num caixão em vez de coberto com um lençol, para se evitar males maiores.

Escrito por: Dennis Xavier
A partir da recolha de histórias na Freguesia de S. J. de Lourosa, concelho de Viseu.
Informantes: Asdrúbal Gomes – Recolhido em junho de
2022
Ilustração: Mariana Vicente

Ouvir podcast