O filho Lobisomem

A Tia Micas tinha sete filhos. Para evitar desgraças o último tinha de ser batizado pelo irmão mais velho, mas ela não levou isso a sério e quando ele cresceu, estranhava ver o filho sair de casa sempre que havia lua cheia. Um dia resolveu ir ver o que é que se passava. No fundo ela já pressentia porque uma mãe sabe sempre tudo… mas queria tirar as teimas, queria a prova provada, a verdade sobre o que é que ele fazia. Saiu de casa e caminhou na rua escura até à encruzilhada. Escondeu-se atrás de uma figueira que havia no largo do soito. Chegou a meia noite, era lua cheia e ela começou a ouvir uns cascos a descer pela calçada. Os cascos iam-se aproximando cada vez mais e ela ficou aterrada. Subiu para a figueira mas esse animal que vinha de longe a bater os cascos na calçada quis mordê-la e agarrou-a pelo seu saiote vermelho, o saiote vermelho que as mulheres tinham por hábito vestir quando estavam menstruadas. O seu coração de mãe dizia-lhe que ele não a iria atacar, mas ele tentou mordê-la, e ela trepou mais alto, e ele tentou de novo e ela trepou mais alto. Aquele criatura era um lobisomem. Por fim, desistiu e foi-se embora. Tinha ainda de percorrer sete aldeias, sete fontes, sete cemitérios sete pontes. Mas só quando a lua se escondeu e começou o amanhecer é que a Tia Micas teve a coragem de descer da figueira. Era hora dessas figuras aterradoras da noite se esconderem porque se iam transformar novamente. A Tia Micas foi para casa e esperou o filho sentada à lareira. Quando ele chegou, sentou-se e a mãe perguntou-lhe:

– Então filho, de onde é que tu vens?

Ele sorriu e foi nesse momento que a mãe viu nos seus dentes as linhas vermelhas do seu saiote.

Relatado por: Rosa Ferreira
A partir da recolha de histórias na freguesia do Campo, concelho de Viseu em junho de 2022.

Ilustração: Mariana Vicente

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