A mulher poderosa d’outrora

Em determinadas circunstâncias, a mulher via-se entre a espada e a parede, forçada a tomar as rédeas do seu próprio destino. Conta-se que no tempo dos pais ou dos avós do Sr. Asdrúbal, ou seja, há muito muito tempo, havia muitos assaltantes em São João de Lourosa. Era preciso ter cuidado e não era ao acaso que as mulheres não deviam andar na rua depois do sol posto. Mas claro que este conselho não era para todas ou nem todas se deixavam intimidar. 

Uma senhora, chamemos-lhe Olga, da família do Ramos, esposa de um general, já na altura fumava, mas só à noite. Dizia-se do seu marido general, que tinha uma pontaria tão certeira que um dia desafiou a sua própria mãe a colocar uma maçã no topo da cabeça. Apontou a pistola à maçã…e claro, acertou, senão esta história era outra. A história não é sobre o general mas sobre Olga. Ela saía depois do sol se recolher, ia a pé até ao cemitério, voltava, fumava o seu cigarro e fazia assim a sua passeata, livre dos olhares maledicentes das outras mulheres mas sujeita a outros perigos. Certa noite apareceu-lhe um dos mais temidos assaltantes da zona que quando a viu, embrenhada na nuvem de fumo do cigarro que fumava dirigiu-se a ela e perguntou-lhe:

– A senhora dá-me lume?

Percebendo as intenções do assaltante, muito cordialmente e de forma bem tranquila, Olga levantou um pouco a saia, tirou uma pistola de um coldre escondido, colocou no cano da pistola o cigarro aceso que estava a fumar e, apontando-lhe a arma, disse: 

– Faça favor de se servir.

 O assaltante, desconcertado, paralisou. 

– Faça favor de se servir – repetiu ela.

Com as mãos a tremer, ele encostou o seu cigarro à ponta do cigarro dela. Olhou pelo cano da arma acima e, sem mais nada acrescentar ao silêncio sepulcral, afastou-se na noite. Olga manteve a pistola em riste até a nuvem de fumo se dissipar. Afinal de contas não era apenas o seu marido que tinha uma pontaria lendária. E apesar do nome desta mulher não ter chegado aos dias de hoje, chegou até nós a sua bravura numa altura em que o mundo era ainda, formalmente, dominado pelos homens.

Escrito por: Sofia Moura
A partir da recolha de histórias na freguesia de S. J. de Lourosa , concelho de Viseu.
Informantes: Asdrúbal Gomes – Recolhido em junho de
2022
Ilustração: Mariana Vicente

Ouvir podcast