
MINI-CONFERÊNCIA PARA PÚBLICO INFANTO-JUVENIL – M/9
15.03
16h00
Quinta da Cruz – Centro de Arte Contemporânea, Viseu
Para que Serve a Cultura?
com José Maria Vieira Mendes. Teatro Praga
Em 2019, J.M. Vieira Mendes foi convidado pelo Teatro LU.CA em Lisboa para fazer uma conferência para crianças que lidasse com a pergunta “Para que serve a cultura?”. Dessa conferência veio mais tarde a nascer um livro, em parceria com Madalena Matoso, publicado pela Planeta Tangerina e com o título Para que serve?, livro esse entretanto traduzido em diferentes países e selecionado pelo prestigiado catálogo White Raven 2021.
5 anos depois de começar, Para que serve a cultura? continua a levar as crianças ao mundo das perguntas no formato mini-conferência, mostrando que se podem fazer perguntas às perguntas para nos ajudar a perceber se as perguntas fazem sentido. Será que faz então sentido perguntar à cultura para que serve? Ou será que perguntar à cultura para que serve é o mesmo que perguntar a uma mesa quantos braços ela tem?
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Ata nº 1 – A Cultura
Redigida por Sofia Moura
No dia quinze de março de dois mil e vinte e cinco apresentou-se em Viseu, no auditório da Quinta da Cruz – Centro de Arte Contemporânea, a mini-conferência para público infando-juvenil intitulada: “Para que serve a cultura?” – com José Maria Vieira Mendes do Teatro Praga. A conferência, que tanto serve para miúdos como graúdos, pretende dialogar com o público, levando-o através de um raciocínio filosófico, que tem como ponto de partida questionar a utilidade das coisas e a utilidade da própria pergunta: Para que serve? – quando aplicada, neste caso, à cultura. O mundo que habitamos dita o valor das coisas com base na sua utilidade. Se não serve para nada, não tem valor. E é facto de que há coisas que existem e são construídas e criadas meramente pelo seu valor utilitário: a tesoura corta – uma tesoura que não corta não cumpre o seu propósito, o lápis é para escrever – sem bico perde a sua utilidade. Existem até coisas que, no seu nome, apresentam já a sua função: o corta-unhas corta unhas, o saca-rolhas saca as rolhas, a escova de dentes escova os dentes e por aí fora. Há coisas que servem para mais do que uma coisa, são multifuncionais e aumentam assim a sua utilidade – como os telemóveis, sem os quais conseguimos viver atualmente. Mas, de súbito, a criatividade humana acontece. E, na vida, como no teatro, muitas vezes usamos as coisas de formas diferentes, enganando assim o seu propósito inicial e desafiando os quadrados e as caixas que nos ajudam a categorizar o mundo. Dessa forma um lençol pode ser uma corda, um chapéu pode ser um cesto e uma panela pode ser um instrumento musical. A multiplicidade de propósitos, óbvios ou não, aumenta o valor útil do objeto e, de certa forma, o seu encanto. Mas a conferência leva-nos a uma pergunta que pode deixar algumas coisas fora de todas as gavetas. Será que há coisas que não servem para nada? Talvez exista uma gaveta para as coisas que não servem para nada: como temos em casa a gaveta da tralha cheia daquelas coisas que não podemos deitar fora, mas que já não sabemos usar. E talvez nunca soubemos.
A utilidade de uma coisa é o que nos ajuda a perceber o que ela é. Podemos assim fazer o raciocínio: Para que serve uma coisa = O que é uma coisa. Se não serve para nada, será nada? – e assim, porque continuamos a guardar na gaveta?
É facto que seria um despropósito aplicar esta pergunta a tudo o que existe. Faz sentido perguntar para que serve um elefante? Para que serve um sonho? Para que serve um filho? Para que servem as flores? Uma montanha? E um quadro no museu? Podemos reduzi-los ao seu valor útil? Não é que estas coisas, animais, pessoas, não sirvam para nada, mas a sua existência não é determinada pela sua utilidade. Neste caso, podemos questionar: para que serve perguntar para que serve?
Este raciocínio, feito de forma simples e intuitiva com as crianças que assistiram à conferência, denuncia uma problemática no mundo atual: um mundo focado no utilitarismo que desnuda a sociedade de empatia e pensamento crítico. Se meço o valor do outro com base na sua utilidade para mim, o que deixo de fora, no campo das relações humanas? O que estou a ignorar, em relação à complexidade e dignidade desse ser? Há coisas não quantificáveis e não categorizáveis. E a cultura é precisamente uma delas, pois é inerente à humanidade e tão complexa como ela. Por isso, faz sentido que não faça sentido perguntar: Para que serve a cultura?
O acesso à arte e à cultura é o que nos permite constantemente reavaliar a democracia e como ela nos está a servir. De facto, a cultura tem muita utilidade, ainda que não seja essa a pergunta que governantes devem fazer enquanto indagam a percentagem do orçamento de estado que lhe deverá caber. Numa sociedade democrática os valores capitalistas, que determinam a utilidade de todas as coisas para que possam ser capitalizáveis, não devem estender-se a todas as áreas da vida humana. Cabe ao estado democrático assegurar o espaço da empatia, do pensamento, da conexão, da comunidade e do imaterial.
Coube no dia quinze de março refletirmos em conjunto, miúdos e graúdos, num tempo e lugar assegurado pela cultura, sobre a gaveta onde guardamos o mais precioso.

