Os trocos a mais

Há muito tempo atrás, mas não tanto assim, no tempo em que uma sardinha era a refeição de três, em que um comia o rabo, outro ficava com o meio e outro com a cabeça, a Dona Maria tinha dois filhos. 

A Dona Maria era uma das muitas lavadeiras que acordava muito cedo, pegava nos lençóis e na roupa maior, molhava-a no rio de Rio de Loba e punha-a em cima da erva a corar. Com sol ou sem sol, a roupa punha-se a corar e quanto mais cedo melhor, antes que viessem outros e já não houvesse lugar. E ao domingo, lá iam os filhos entregar as roupas lavadas e bem dobradas às famílias mais ricas, porque  “Trabalho de menino é pouco mas quem não o aproveita é louco”. 

O dia era longo e o trabalho dava fome, mas não dava de comer. Até ao dia em que em conjunto decidiram que em vez dos 2 escudos que a mãe pedia, se fossem 25 tostões, já dava para mais qualquer coisinha. E ao fim do trabalho, os trocos que sobravam, eram muito bem contados para um quarto de pão de segunda e uma posta de bacalhau na taberna da Dona Cândida que dividiam irmamente.

– Oh Cândidinha, não diga à minha mãe, senão a minha mãe…

E ela nunca disse à mãe dos pequenos. Quando eles voltavam no domingo seguinte, ela tinha a sandes guardada para eles assim como guardou este segredo até ao fim dos seus dias.

Escrito por: Ana Arinto
A partir da recolha de histórias na Freguesia do Campo, concelho de Viseu.
Informantes: Maria Augusta – Recolhido em Junho de
2022
Ilustração: Mariana Vicente

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