< VOLTAR À PÁGINA PRINCIPAL

ESPETÁCULO-CONFERÊNCIA

11.04

21h30

Aula Magna do Politécnico de Viseu

O que importa é participar

com Hugo van der Ding

O que importa, como sabemos, é participar. Ainda que, por vezes, não levemos a taça para casa. A História de Portugal está cheia de participações especiais. Como daquela vez que os padres se passaram com o rei e o puseram a andar (1245). Ou quando o povo de Lisboa mandou o bispo de Lisboa em voo pela janela da Sé (1383). Ou aquela vez em que as fiandeiras do Porto se revoltaram contra o rei, que era espanhol (1629). Ou quando, no Brasil, o Zumbi dos Palmares lançou a luta contra os portugueses (1695). Ou quando os trabalhadores das obras do Palácio de Mafra cruzaram os braços até que lhes pagassem o que deviam (1732). Ou quando os pescadores de Olhão se revoltaram contra as tropas dos franceses (1808). Ou quando um grupo de mulheres do Norte quis à força enterrar uma velha numa igreja (1846). Ou quando os tipógrafos de um jornal fazem a primeira greve fabril em Portugal (1849). Ou quando umas curandeiras burlonas chinesas quase derrubaram a República (1911). Ou quando andou tudo à batatada pela falta de batatas (1917). Ou quando, contra a ditadura do Estado Novo, se assaltou um barco (1961), um avião (1961) e um banco (1967). Terminando tudo, faz agora cinquenta anos, num dia inicial inteiro e limpo (1974).

Ata nº 7 – A Participação

Redigida por Sofia Moura

No dia onze de abril de dois mil e vinte e cinco, na Aula Magna do Politécnico de Viseu, recebemos o espetáculo-conferência de Hugo van der Ding intitulado “O que importa é participar”. No jeito característico do Hugo, falou-se a brincar de coisas sérias, de histórias reais de participação, de revolta do povo ou de algum indivíduo que tenha lutado pelos seus direitos ao longo dos séculos. Todas as histórias partilhadas tinham algo de extraordinário, quase inacreditável, e, apesar de muitas serem trágicas, foram contadas com grande humor pondo toda a plateia a rir. Eram acompanhadas por uma ou duas ilustrações sarcásticas da autoria do próprio Hugo partilhadas numa tela atrás de si.
Partilho as duas histórias que pessoalmente mais me ficaram na memória. A primeira que partilho passou-se em mil novecentos e onze, um ano após a implantação da república, quando duas curandeiras chinesas, de Xangai, se instalaram na Baixa de Lisboa prometendo curas milagrosas para problemas oftalmológicos, alegando que extraíam “bichos” dos olhos dos pacientes. Ainda que hoje nos possa parecer tudo uma fraude, várias pessoas afirmaram ter recuperado a visão após o tratamento das “chinesas dos bichos” o que fez com que elas ganhassem fama e arrastassem assim multidões de novos pacientes. O governo quis proibir a prática das chinesas, alegando que estas se estavam a aproveitar do povo e denunciando os perigos sanitários das suas intervenções. Contudo, esta proibição e a eventual expulsão das chinesas de Portugal gerou uma onda de protestos populares que escalaram de forma impressionante. O povo defendia o seu direito de aceder aos tratamentos das chinesas e não queriam ser “protegidos” pelo governo. Tentando acalmar o povo em protesto, um dos fundadores da República, António Maria de Azevedo Machado Santos, vem discursar no meio de uma manifestação e, se um ano antes tinha sido aplaudido e aclamado, foi naquele momento vaiado e perseguido, tornando-se um inimigo público. Foi provavelmente a primeira grande conturbação urbana da República Portuguesa, reflexo de um descontentamento que agora se expressava livremente nas ruas e que mostrava que o povo sabia o que queria e, ainda que pudessem ser enganados, preferiam pensar e decidir por eles próprios.
O Hugo partilhou também uma história sobre o Zumbi dos Palmares. O Quilombo dos Palmares, no Brasil, foi o maior e mais duradouro quilombo da América Latina, com uma extensão de perto de cem mil quilómetros, comparável ao tamanho de Portugal. Um refúgio para os escravizados que fugiam das plantações no Nordeste do Brasil, entre o final do século dezasseis e durante o século dezassete. Era uma comunidade organizada e auto-suficiente que lutava pela conquista e manutenção da sua liberdade e de todos os negros escravizados. Zumbi foi um dos seus líderes, sendo hoje um dos símbolos da resistência à escravidão. Recusou colaborar com a coroa portuguesa quando tentaram forjar um acordo que terminaria com os ataques ao quilombo, oferecendo a liberdade a todos os nascidos em Palmares mas obrigando a que todos os escravizados fugidos fossem devolvidos e que o quilombo se recusasse a aceitar novos escravizados. Para Zumbi a liberdade só o era se fosse para todos e ele não poderia aceitar essa exigência. Manteve o espírito de luta e resistiu até ao fim, sendo que o fim foi violento: após ser denunciado o seu esconderijo por um dos seus companheiros foi morto e decapitado.
O Hugo concluiu, no fim de todas estas histórias partilhadas, que estes movimentos de revolta e reivindicação, no fundo tinham tido pouco impacto real para gerar mudanças e que, muitas das vezes, reservavam destinos terríveis para os audazes que os iniciavam. Na conversa pós-espetáculo do “Trans/Missão”, que integrou a programação do DEMOC, já se tinha discutido esta ideia de que a revolução é traumática e muitas das vezes traz muito sofrimento a quem a propõe. Quanto a se gera ou não mudanças na sociedade, pode não mudar as regras do jogo mas fazer abanar um pouco o tabuleiro e fazer tremer o sistema. Serve, no mínimo dos mínimos, para, passados todos estes anos destas histórias vividas, estarmos juntos num auditório a refletir, através do humor, sobre a coragem dos que nos antecederam e a questionar que atos de coragem dos nossos tempos farão as histórias contadas no futuro.

Privacy Settings
We use cookies to enhance your experience while using our website. If you are using our Services via a browser you can restrict, block or remove cookies through your web browser settings. We also use content and scripts from third parties that may use tracking technologies. You can selectively provide your consent below to allow such third party embeds. For complete information about the cookies we use, data we collect and how we process them, please check our Privacy Policy
Youtube
Consent to display content from - Youtube
Vimeo
Consent to display content from - Vimeo
Google Maps
Consent to display content from - Google