
OFICINA PARA CRIANÇAS E JOVENS – M/9
08.04
10h00-11h30 (grupo 1)
14h30-16h00 (grupo 2)
09.04
10h00-11h30 (grupo 1)
14h30-16h00 (grupo 2)
Quinta da Cruz – Centro de Arte Contemporânea, Viseu
Escrita de canções de protesto!
Com Afonso Cabral, Francisca Cortesão & Inês Sousa
Partindo da nossa curiosidade acerca das ânsias, preocupações, desejos e modos de expressão dos públicos aos quais temos dirigido o nosso concerto comentado – o Mais Alto! – decidimos orientar oficinas de escrita de canções de protesto para alunos do ensino básico e secundário.
Trabalhando com grupos nas escolas ao longo de um período mínimo de dois dias, propomo-nos a escrever pelo menos uma canção com cada conjunto de alunos (que podem ou não ser da mesma turma).
Dito isto, o que nos interessa não é tanto produto final – a própria canção – mas ouvir os alunos acerca das questões que os preocupam, conversar sobre o que é uma canção e, especificamente, uma canção de protesto ou de intervenção, e criar com eles um espaço onde possam expressar-se de forma livre. É certo que neste processo aprenderemos tanto ou mais do que os nossos formandos.
Ata nº 5 – A Intervenção
Redigida por Sofia Moura
Nos dias oito e nove de abril de dois mil e vinte e cinco no espaço do ATL Grande Pinta e na Quinta da Cruz – Centro de Arte Contemporânea de Viseu, decorreu a oficina de “Escrita de canções de protesto!”, dinamizada habitualmente pelo Afonso Cabral, Francisca Cortesão e Inês Sousa, sendo que desta vez, por motivos de saúde, puderam estar apenas a Francisca e a Inês. A oficina pressupunha dois blocos de trabalho com cada grupo, sendo que o grupo que trabalhou no bloco das manhãs eram jovens que frequentavam o segundo ciclo e os jovens que trabalharam no bloco da tarde frequentavam o primeiro ciclo.
A oficina é assente em dois recursos: uma guitarra e a imaginação de todos os envolvidos. Começa com uma conversa em que a Francisca e a Inês questionam o grupo acerca das suas preocupações e inquietações acerca do mundo, da escola e da sociedade. O que gostariam de mudar? Criar estes espaços de conversa dentro e fora das escolas parece-nos essencial para o bem-estar destes jovens, para o desenvolvimento do seu pensamento crítico e o seu envolvimento na sociedade, mas também para o esclarecimento de dúvidas e confusões que possam ter em relação a determinadas temáticas que ainda só conhecem superficialmente. As idades diferentes de cada grupo revelaram, naturalmente, diferentes preocupações. Os mais velhos falaram do machismo e de papéis de género – manifestando até alguma confusão em relação à definição de termos como feminismo, enquanto que os mais novos manifestaram preocupações mais ecológicas.
A Francisca e a Inês notaram diferenças também no à-vontade de cada faixa etária, sendo que os mais novos eram mais desinibidos e tinham menos medo de errar, sobretudo no ato de cantar. Construiu-se, em cada grupo, composto por cerca de doze crianças, um refrão comum, sendo que depois esse grupo era subdividido em três onde se criavam as estrofes diferentes, para se voltarem a reunir no fim e comporem a canção completa. As ideias partiram dos jovens, tanto para as melodias como para as letras, sendo que as formadoras apenas ajudavam a tornar mais eficazes as escolhas, dentro daquilo que eles pretendiam.
Seguem alguns dos exemplos das estrofes e do refrão criado pelo grupo dos alunos do 2º ciclo.
ESTROFES
Se eu mudasse o mundo
Não haveria nenhum defeito
Isto é um tema profundo
Ficava tudo perfeito
Com uma reforma escolar
As aulas podiam ser mais divertidas
Tudo poderia melhorar
E brincava mais com as minhas amigas
Passava mais tempo a brincar com os amigos
A dançar a patinar e a viajar
Parem de olhar para os vossos umbigos
De manipular, de mentir e de matar
Vou usar o telemóvel com cautela
Eu gosto muito de jogar
Mas vou usá-lo como uma janela
E fora do horário escolar
Os homens não são melhores que as mulheres
E vice-versa também é verdade
Elas não têm de lavar sempre os talheres
E eles podem mostrar vulnerabilidade
REFRÃO
Vou usar esta canção
para acabar com o mal
Dentro do meu coração
quero só o essencial (x2)
As temáticas que encontramos nas letras refletem o oscilar entre as vidas pessoais e quotidianas destas crianças (a escola, os telemóveis, as amizades) e as suas preocupações com o universal e com a sociedade (o machismo, as guerras). O essencial nesta oficina é permitir esse espaço de expressão dos jovens através da ferramenta da música para que as suas vozes, literalmente, se façam ouvir na procura por aquilo que consideram certo e justo. Nos mais pequenos, a revolta era menor, felizmente (?), e a sua canção acabou por ser mais focada no quanto gostavam de viver em Viseu.
Esta oficina nasceu a partir do concerto “Mais Alto!”, onde o mesmo coletivo, em conjunto com o músico Sérgio Nascimento e os comentadores das canções Isabel Minhós Martins e João Vaz Silva, convidam a plateia a refletir sobre um conjunto de músicas que foram essenciais para as mudanças políticas e sociais de vários países. Todo este projeto gira em torno da ideia de que a música muda o mundo e o mundo muda a música. Ela é um reflexo e ao mesmo tempo uma arma para moldar democracias e, por vezes, podem mesmo ser o ponto de partida, a senha que dá o sinal de que é hora de terminar com a ditadura.


