
CLUBE DE LEITURA
29.03
12h00-17h00
Quinta da Cruz – Centro de Arte Contemporânea, Viseu
Heróides-Clube do Livro Feminista
Cassandra

O nome do projecto é roubado ao livro homónimo de Ovídio, um poeta latino, em que o autor escreve várias epístolas assinadas pelas heroínas da mitologia grega e romana, endereçadas aos seus amantes. Apropriamo-nos do nome Heróides para criar um clube do livro em que olhamos para as obras de um ponto de vista feminista.
O desafio é ler um livro por mês, e, no último sábado de cada mês, encontrarmo-nos num Clube de Leitura via Zoom, com a pessoa convidada, as leitoras e leitores que se quiserem juntar.
Para esta sessão presencial, a leitura conjunta, votada pela comunidade, é “Caruncho”, de Layla Martínez.
Ata nº 2 – Os Livros
Redigida por Sofia Moura
No dia vinte e nove de março de dois mil e vinte e cinco, nos jardins da Quinta da Cruz – Centro de Arte Contemporânea de Viseu, juntou-se um grupo de pessoas de vários pontos do país a propósito do clube de leitura feminista “Heróides”, organizado pela estrutura Cassandra e orientado pela atriz e encenadora Sara Barros Leitão. O clube de leitura é feminista pois é essa a abordagem com que se olha para as obras: no fundo, uma abordagem humana, que visa promover a igualdade de género e desconstruir ideias feitas e sedimentadas. Ao redor de um piquenique, entre o meio-dia e as cinco da tarde, discutiu-se o livro “Caruncho” de Layla Martínez.
As conversas são como as cerejas e, num ambiente muito descontraído, sentados em círculo na relva, as referências paralelas*, que surgiam à medida que a conversa fluía, foram registadas por um elemento da organização do clube de leitura. Assim, motivadas pela leitura do primeiro romance de Layla Martínez, sobre uma avó e uma neta e a casa que habitam como prisão, elemento de trauma e terror, envolta numa espécie de realismo mágico, surgiram várias reflexões sobre o estado do mundo, sobre a responsabilização ou justificação de atos violentos, sobre o trauma herdado, as influências atuais – como as redes sociais, as manipulações e a era da pós-verdade, as desigualdades de género, entre muitos outros assuntos.
Antes disso, claro, quebrou-se o gelo (não fosse o encontro à volta da comida suficiente para o quebrar), para que a conversa que se seguiu pudesse fluir. Cada participante escolheu um livro de entre os que estavam dispostos numa manta na relva, juntou-se a outra pessoa e apresentou-se, bem como ao seu motivo para escolher aquele livro. Depois, em roda, cada um apresentava o seu parceiro como se de si mesmo estivesse a falar, fingindo toda a confiança para responder a perguntas, como se fossem de facto o outro. Em pouco tempo fala-se de muita coisa e conhece-se muita gente. Estão abertas assim as portas para uma tarde agradável com pessoas e livros.
Com o clube de leitura viaja também a livraria da Cassandra, com uma seleção especial de livros, ou já lidos no clube ou carinhosamente escolhidos pela sua pertinência temática e qualidade, alinhados com os valores e interesses da estrutura. Foi ainda lançado um desafio para espalhar pelo país, em locais públicos, para que qualquer pessoa pudesse recolher, livros de autoras ucranianas, para ajudar a difundir a literatura ucraniana no feminino. A Mochos no Telhado deixou um livro no jardim à frente do teatro CENDREV, em Évora, que prontamente foi apanhado por desconhecidos. Gostamos de imaginar em que estante viverá este livro e desejamos que as suas palavras tenham tido o impacto que qualquer bom livro tem na vida da gente.
Neste encontro celebrou-se o amor pela literatura, comum a todos os presentes. A literatura como ponto de partida para apreender mais do mundo, para conhecer mais, refletir sobre realidades que não são as nossas e encher-nos de imagens, pensamentos e afetos. Num mundo cada vez mais alienado, com indivíduos cada vez mais isolados, a sensação de pertença a uma comunidade é algo que todos procuram. Uns encontram essa comunidade na religião, outros em partidos políticos, outros no amor ao futebol. De forma generalizada, correndo o risco de alguma injustiça, na maioria dessas comunidades não é estimulado o pensamento crítico ou a empatia, ferramentas essenciais para pensar o mundo e a democracia, mas sim a uniformização e devoção a uma ideia ou um grupo. Criar e nutrir uma comunidade diversa através de um ato tão intimista e libertador como a leitura, é revigorante. Estimular a multiplicidade de ideias e interpretações, fugindo à ideia única, é vital. Desafiar o nosso eu e o mundo que carrega pondo-o em contacto com realidades díspares e dissonantes da nossa, é um imperativo para o crescimento interior. Poder discordar. Escutar. Conectar. E partilhar um sábado com um novo grupo de pessoas para pensar o mundo através da lente de um livro, tudo isso é sinónimo de ser livre. E é isso que interessa ao DEMOC.
*Link para as referências e leituras paralelas a partir da conversa sobre Caruncho de Layla Martínez
Reservar


