< VOLTAR À PÁGINA PRINCIPAL

ESPETÁCULO-TEATRO M/10

06.04

16h00

Biblioteca Municipal de Viseu

Duração: 50 minutos

A Quinta dos Animais

De Tonan Quito, com Cláudia Gaiolas

Publicado por George Orwell em 1945, A Quinta dos Animais é um texto político e satírico, mas também uma fábula sobre o modo como nos relacionamos com o outro, aqui entendido como qualquer criatura, qualquer ser com o qual se estabelece uma relação. Soma-se, a isso e em pano de fundo, o velho tema do poder, de como o poder pode ser irresistível e, em última análise, de como o poder corrompe. Nada mais atual. E nada mais transversal. Porque a luta pelo poder — do mais pequeno ao maior dos palcos — é, de facto, de todos os tempos, e porque ela começa na infância, se intensifica na adolescência e se concretiza na idade adulta, faz sentido perguntar aos mais novos: quem manda aqui?

Ata nº 4 – A Ditadura

Redigida por Sofia Moura

No dia seis de abril de dois mil e vinte e cinco, na Biblioteca Municipal de Viseu, apresentou-se a peça “A Quinta dos Animais” de Tonan Quito, com interpretação de Cláudia Gaiolas e texto de Inês Fonseca Santos a partir da obra de George Orwell com o mesmo título, publicada em mil novecentos e quarenta e cinco. Uma obra com oitenta anos de existência que continua tão atual e pertinente como sempre – afinal, as disputas de poder são tão antigas quanto a própria humanidade ou, neste caso, quanto a própria animalidade. Este espetáculo é dirigido a maiores de dez anos, mas foram várias as crianças mais novas que estiveram na plateia, juntamente com os seus pais. O cenário, de Fernando Ribeiro, podia habitar o quarto de uma criança: é uma réplica de uma quinta de pequena estatura, com a casa do senhor Reis, o estábulo e animais – cavalos, galinhas, vacas, porcos, entre outros. A intérprete, a Cláudia, manuseia os elementos do cenário para contar a história e, ocasionalmente, uma câmara mostra, tanto de cima como em plano mais aproximado, os acontecimentos da quinta dos animais. Há também um palanque onde a Cláudia, quando encarna o porco Napoleão, faz os seus discursos e um quadro de giz onde estão registados os dez mandamentos do animalismo. Já sabemos que esta história não acaba bem para o povo – os animais da quinta. Não acaba bem para o porco Bola de Neve, exilado e desaparecido. Acaba bem para os opressores que no início da peça, eram oprimidos pelos humanos como o resto dos animais. Esta obra de Orwell e este espetáculo ajudam-nos a refletir sobre os movimentos da História em que, através de revoluções, se quebrou com o poder instaurado, um poder violento, apenas para instalar outro poder violento. Algo se desvirtua no oprimido a partir do momento da sua libertação e à medida que recebe poder, fazendo com que se transforme no opressor que abominava. A subversão do mandamento: “Todos os animais são iguais” para “Todos os animais são iguais mas uns são mais iguais que outros” demonstra bem esse caminho. O resto dos animais, desprovidos de ferramentas ou oportunidades que lhes permitissem estar nesse lugar de domínio, mantém-se libertos da intoxicação do poder mas são vítimas dele. É com eles que empatizamos. Contudo, se nos revemos no oprimido, receamos também rever-nos no opressor. A citação mais perturbadora do livro diz que, no fim, “já não era possível distinguir quem era homem e quem era porco.” A escolha do porco como o animal que triunfa é plena de significados: o porco, como animal sujo, mas esperto, parece ser a metáfora perfeita para falar do pior que existe em cada um de nós, quando a nossa esperteza se associa aos nossos impulsos mais primários e vis.
No fim do espetáculo a Cláudia abriu a conversa para o público e fez referência a um momento específico da peça em que foi pedido ao público que votasse: ou no Bola de Neve ou no Napoleão – quando ainda não se sabia que este seria opressor. O primeiro prometia apenas três dias de trabalho, o outro prometia manjedouras mais cheias. Perguntou aos jovens o que influenciou os seus votos. Uma criança disse que votou no Napoleão porque já conhecia o nome – uma resposta que não deixa de ser engraçada pela sua ironia e que demonstra também esta nossa tendência de votar no que já se conhece. A Cláudia referiu que, de forma geral, nos espetáculos, o Napoleão tem sempre mais votos do que o Bola de Neve. Um jovem sugeriu como explicação para esse fenómeno o facto de no cartaz do Napoleão se falar de comida e no cartaz do Bola de Neve se falar de trabalhar menos, gesto que pode implicar gerar menos comida e assim fazer crescer o receio de que esta não chegue para todos. No entanto o que acabou por acontecer na história foi que o próprio Napoleão acabou por tirar comida aos outros animais. A Cláudia perguntou se o Napoleão lhes tinha feito lembrar de alguém e um jovem, de forma automática e sem grande consciência, respondeu: “o António Costa”, seguindo-se risos da plateia. Outro jovem disse que lembrava o próprio Napoleão. E outro jovem por fim disse que fazia lembrar o Salazar, porque se tinha transformado num ditador.
Para alimentar a conversa questionei à plateia como é que os porcos tinham conseguido controlar os outros animais para que estes fizessem o que eles queriam. Um jovem disse que os animais confiaram nos porcos por estes serem animais como eles. A Cláudia acrescentou que foi retirada a educação aos animais e eles não se aperceberam do que estava a acontecer, a sua capacidade de pensar foi empobrecida. A Cláudia partilhou que um dia uma criança lhe tinha dito que a escola devia ser uma folga de sete dias. De súbito, admitindo-se que a escola tem de facto alguma importância, começou uma discussão na plateia entre as crianças e jovens sobre quantos dias deveria haver de escola e quantos deveria haver de folga, sendo que dois não eram claramente suficientes mas sete seriam demais. Concluiu-se esta conversa com a concordância geral, entre miúdos e graúdos, de que a desinformação e os impedimentos no acesso à educação são a maior ameaça à democracia.

Reservar

Preencha o formulário para iniciar o seu pedido de reserva e receberá a confirmação por email.


Privacy Settings
We use cookies to enhance your experience while using our website. If you are using our Services via a browser you can restrict, block or remove cookies through your web browser settings. We also use content and scripts from third parties that may use tracking technologies. You can selectively provide your consent below to allow such third party embeds. For complete information about the cookies we use, data we collect and how we process them, please check our Privacy Policy
Youtube
Consent to display content from - Youtube
Vimeo
Consent to display content from - Vimeo
Google Maps
Consent to display content from - Google